Ignorance is bliss

Depois do falatório d’A Neta, o silêncio imperou por longos segundos. Ela falou do seu lugar à mesa do Restaurante, enquanto todos os outros estavam nas suas respectivas mesas com seus cafés da manhã à frente. O Amanuense estava no lugar ao lado, um pouco atrás dela, e era o único de pé além d’A Neta. Pensou em falar alguma coisa, alguma palavra de apoio, mas não conseguiu reunir nem as palavras nem a coragem para dizer qualquer coisa. O Velho já estava se servindo e não se deu conta de que a única coisa que fazia barulho no Restaurante eram seus movimentos lentos.

A primeira a falar alguma coisa foi A Escritora. Limpou a garganta enquanto se levantava lentamente. Olho no fundo dos olhos d’A Neta, carinhosamente passou a mão no cabelo d’O Filho, apoiou a mão no ombro d’A Filha, suspirou… Finalmente começou a falar bem pausadamente,

‘Querida jovem, finalmente vocês disseram a que vieram.’ Um leve sorriso se notou. ‘Já há muitos anos que recebemos diversas pessoas por aqui dizendo serem donas. Algumas trazem papéis, outras trazem dinheiro, outras trazem armas. Você, pelo que posso notar, trouxe apenas sua palavra. Não me leve a mal, por favor, mas estamos muito bem sem suas ambições. Estas pessoas que você vê aqui são as reais donas d’O Hotel. Vivemos nele tranquilamente há anos e não precisamos de ninguém nos dizer o que ele é ou não é.’

A Neta olhou para A Garçonete e para A Filha em busca de apoio, mas aquela estava ajudando O Velho a se servir e esta tinha a decepção estampada na cara. Ela se sentia perdida, não entendendo como aquelas pessoas podiam acreditar naquilo que A Escritora dizia. Ela sabia que tinha a razão, que aquilo era um pesadelo do qual todos precisam ser acordados. Ela olhou por todo o Restaurante buscando um mínimo consolo, uma piscadela de olho, qualquer sinal de aprovação. Porém, nem mesmo quando se virou de costas e viu O Amanuense, nem mesmo ele, estava convencido. Ele, a princípio, não percebeu que ela buscava seu olhar – estava perdido olhando como O Filho comia seu café da manhã tão placidamente. Assim que percebeu que A Neta o encarava como quem perguntava et tu, Brutus?, ele balançou rápida e nervosamente a cabeça como se se tratasse de um assessor de político após um discurso de comício. Nada, nada convincente. Como sempre.

O Velho se sentou, agradeceu aA Garçonete e começou a tomar o seu café da manhã cantarolando. Ele estava sentado a meia distância entre A Neta e A Escritora. A Neta olhou para ele com um olhar deveras estupefato. Já A Escritora gostou do que viu, deu um sorriso e voltou a se sentar. Aos poucos, as pessoas voltaram a fazer aquilo que estavam fazendo antes de A Neta falar. Até mesmo O Amanuense pensou em ir se servir, mas A Neta voltou a falar.

‘Vocês estão loucos! Há um mundo inteiro lá fora, fora das fronteiras desta Floresta. Todos vocês sabem disso! Alguns de vocês já até me falaram que querem ir embora!’ e neste momento olhou para A Filha que se enrubesceu. ‘Muitos de vocês vieram lá de fora e – eu não sei o que os faz ficar aqui, realmente não sei -, mas não consigo imaginar nada que possa ser pior que morar nessa espécie de loucura coletiva!’

‘Você tem uma imaginação muito pobre, garota.’, disse O Velho. ‘Há coisas lá fora que fazem daqui um paraíso.’

A Garçonete parou ao lado d’A Neta e lhe ofereceu um suco de laranja. A Neta, ainda sem entender, olhou para aquela cara simpática e recebeu o copo de maneira automática. O Amanuense, atrás dela, fez menção de também aceitar um e A Garçonete foi prontamente à Cozinha fazer outro.

‘Talvez devamos sentar-nos todos e conversar o que faremos daqui em diante.’, tentou ponderar O Amanuense.

‘Não há conversa, meu caro jovem.’, disse pacientemente A Escritora. ‘Aqui é o nosso lugar e ninguém – nem mesmo uma suposta dona – nos fará mudar de ideia.’

Foi neste momento que chegaram A Pessimista e O Marido. Vinham de mãos dadas e sorrindo muito. O clima era tenso no restaurante ele sentiu que deveria perguntar o que estava acontecendo. A Pessimista já sabia o que havia acontecido e, antes de ele perguntar, disse:

‘Você já contou a eles por quê viemos?’

‘Ela contou porquê ela veio.’,  explicou, apressadamente, O Amanuense.

‘E eles não entendem nada, não querem saber de nada… Parece que… Que gostam disso aqui!’, disse A Neta, com indignação na voz.

‘Mas aqui é bom!’, comentou O Filho.

‘Excelente!’, afirmou O Marido que olhou para A Pessimista com um sorriso e ela concordou com a cabeça, não sem um pouco de dúvida.

‘Bagabioso!’, tentou dizer O Velho com a boca cheia de salsicha e ovo mexido.

A incredulidade d’A Neta era como uma nuvem por cima dela que a impedia de entender como aquela situação poderia estar acontecendo. Para ela, era inconcebível que alguém gostasse de viver num prédio decadente, com móveis carcomidos, com o mato tomando conta, com buracos no teto, sem nada por perto. Seria bonito se não fosse uma loucura completa.

O Amanuense, por seu lado, já havia se sentado e tomava seu suco de laranja pensando em como poderia ajudar A Neta. Ele era da mesma opinião que ela. Ele queria ajudá-la a recuperar estas pessoas e revitalizar O Hotel. Ele sonhava acordado pensando em como seriam lindos os dias de trabalho como gerente administrativo. Já imaginava O Recepcionista como gerente de operações e A Garçonete como concièrge ou chefe de A&B. A Camareira, contudo, não seria parte do novo staff. Bom, na verdade ele perguntaria aos outros dois o que eles pensam dela, mas ele não gosta nada… Talvez ela poderia ser…

BUM!

Ouviu-se um barulho surdo, tal como um saco de batatas. O Amanuense parou de sonhar, A Neta suspendeu sua indignação, A Pessimista desistiu daquele ensaio de sorriso, O Marido deixou de rir, todos os outros estremeceram com a comida na boca. Do lado de fora, no meio do Campo de Golf, se via o Caçador de Recompensas sagrando muito.


Nada é impossível

Enquanto todos desciam para o restaurante para tomar café da manhã, A Pessimista se lembrou que não havia trancado a porta dela. Disse aos outros que os encontraria no restaurante e voltou ao seu quarto. Baixaram as escadas A Neta, O Amanuense e O Velho. Chegaram ao restaurante e as mesas já estavam postas, como […]


A Reunião

Depois da conversa com A Filha, A Neta e O Amanuense foram conversar com o resto d’O Grupo. A principal preocupação deles eram A Pessimista e O Velho, já que ninguém gostava d’O Caçador de Recompensas. Tinham que agüentá-lo, já que fora ele quem os trouxera até O Hotel, mas ninguém confiava nele. A Neta […]


Não estamos de férias

O quarto 107 d’A Pessimista era um dos que tinha a vista para o campo de golf do lado oposto à entrada d’O Hotel. Ela abriu a mochila dela e ficou por muito tempo olhando uma foto que ela tinha deixado no fundo, escondida dentro de um livro. Há muito tempo que ela esperava por […]


Dr Tarr

‘Bom dia! Sentem-se aqui e logo já trago o café da manhã dos senhores.’, disse a simpática Garçonete que saíra da cozinha, do lado oposto do restaurante. Os cinco se sentam e começam a olhar em volta… Tudo é decadente, menos as roupas e os sorrisos dos outros hóspedes sentados à outra mesa. Eles estavam […]


O Contato

‘Bom dia! Bem-vindos aO Hotel! Em que posso ajudar?’, disse O Recepcisnista, como se recebesse novos hóspedes todos os dias. O Grupo inteiro se assustou e A Pessimista soltou um leve grito. A cara tranqüila e serena d’O Recepcionista era o contrário de convidativa. O ar solícito e ameno que ele aparentava não combinava em […]


O Hotel

Pim! fez a campainha na recepção d’O Hotel. Aquele gesto foi prontamente reprovado por todo O Grupo, que na noite anterior avistara o grande edifício naquela capoeira d’A Floresta. O grupo confabulara durante a noite se entrava ou não no prédio. Apesar de estar caindo aos pedaços, eles viram que havia quem o habitasse e […]


O Hotel, A Série

O Hotel é uma série que, se tudo der certo, estréia no próximo domingo, dia 30 de dezembro. Cada episódio, no velho e bom estilo folhetinesco de séculos passados, será lançado a cada domingo. O Hotel começa quando um grupo de pessoas – O Grupo – finalmente toma coragem para entrar n’O Hotel. Eles viam […]