O Hotel

Pim! fez a campainha na recepção d’O Hotel. Aquele gesto foi prontamente reprovado por todo O Grupo, que na noite anterior avistara o grande edifício naquela capoeira d’A Floresta. O grupo confabulara durante a noite se entrava ou não no prédio. Apesar de estar caindo aos pedaços, eles viram que havia quem o habitasse e por isso sentiram muito medo de que alguém tivesse escutado a campanhia. O mal já estava feito e por uns segundos a tensão tomou conta do grande hall. A reprovação, contudo, foi apenas visual, já que ninguém ousara falar desde que tinham cruzado o limite das árvores rumo aO Hotel.

O pim! reverberou por todo o espaço – por todo o grande espaço. O pé-direito era alto, não menos de 6 metros. A recepção cobria toda a frente da porta de entrada. O lugar era decadente, mas deixava entender que fora um hotel de um luxo num passado distante. Impossível saber quão distante era esse passado… Parecia que há muito ninguém pisava naquela recepção – parecia que há muito ninguém tocava aquela campanhia. O saguão era grande, enorme até. O Grupo estava todo reunido no fim de um tapete que fora vermelho nos tempos áureos, mas naquela manhã era de um marrom encardido – onde houvesse cor, já que o tapete era mais buraco que pano.

Enquanto chegava, vindos d’A Floresta, O Grupo pôde perceber que décadas haviam passado desde que as portas daquele Hotel haviam sido abertas. O mato havia tomado conta da parte externa e também dos espaços internos. À porta principal, alta e larga, as raízes das árvores próximas formavam pequenos degraus e avançavam Hotel adentro. O piso debaixo do carpete estava a vista e era áspero e esfarelento. Caminhar pela entrada não era tarefa fácil. Todos d’O Grupo tentavam mover-se por ali o mais discretamente possível, mas os gravetos no chão denunciavam a presença dos forasteiros com um ‘crac’ a cada passo.

O Grupo chegou pelo Leste do círculo. Haviam chegado ao limite das árvores na noite anterior e, quando viram o prédio naquele anoitecer, sabiam que era o lugar que tanto buscavam. O caminho desde O Povoado havia sido longo e duro, mas ali estavam. Desde a última noite n’A Pousada que eles não conseguiam dormir direito. Cada começo de noite, quando montavam acampamento, o silêncio imperava. Não conseguiam dormir, pensando em quando finalmente encontrariam O Hotel. A noite antes de entrarem n’O Hotel foi a primeira que todos conseguiram fechar os olhos, dormir e cada um sonhou com a razão que os trouxera aO Hotel.

Ao chegar ao limite das árvores na noite anterior, O Grupo decidiu esperar pelo amanhecer para entrar. Não foi uma decisão fácil, pois todos estavam afoitos para chegar de vez aO Hotel, mas nenhuma das decisões que os levara até ali havia sido fácil. A principal razão que os impediu de entrar n’O Hotel durante a noite era a presença de pessoas no prédio. Havia uma luz acesa e as sombras de pessoas caminhando em pelo menos um dos cômodos era nítida. Todos n’O Grupo pensaram que os seus olhos lhes enganavam… ‘Como é possível que alguém viva ali?’, perguntou A Neta. Nenhum deles entendia como era possível, mas pelo menos uma pessoa estava contente com aquela luz e aquelas sombras. Por precaução, a chegada foi adiada para a manhã seguinte.

Como O Grupo chegou pelo Leste, estava justo no caminho à porta d’Hotel. Era um caminho arborizado de ambos os lados, com altíssimas palmeiras-imperiais que ia do limite d’A Floresta até a recepção d’O Hotel. O caminho era de paralelepípedos e os espaços entre as pedras eram preenchidos por grama – nos Tempos Áureos, já que naquela manhã, parecia só mato. Através das palmeiras-imperiais podia-se ver uma construção de tijolos vermelhos à direita – talvez uma pequena casa – com uma pequena chaminé no alto. À esquerda, apenas uma alta cerca viva que começava e terminava em ângulos retos e se estendia por vários metros. Mas O Grupo não prestou muita atenção a isso, já que todos queriam entrar de uma vez por todas n’O Hotel.

De onde O Grupo chegara, podia-se ver que O Hotel tinha um andar térreo bem alto e redondo. Os três andares seguintes eram quadrados, mais largos que o círculo do térreo – um pouco como uma câmera Hasselblad com a lente olhando para o chão. A entrada do térreo continha só a recepção, que se estendia das escadas à esquerda até o elevador à direita. O balcão é simples, como tudo n’O Hotel. ‘Menos é mais’ era o conceito à época da construção. A parede atrás da recepção mostrava vários relógios parados e debaixo de cada um deles havia uma placa que deveria trazer o nome de uma cidade ao redor do mundo. Já não se lia nenhum nome.

O andar da recepção era um círculo de vidro com o chão de carpete de um verde já sem cor. Fora do vidro, o piso era de um mármore que à época da inauguração era tão bem polido que parecia um espelho. Esse piso de mármore era quadrado como os andares superiores e em cada esquina havia uma coluna que sustentava a construção. No térreo, os espaços vazios impressionavam. Da recepção, só se via a enorme parede atrás do balcão que terminava antes de tocar no vidro, de forma que se podia caminhar e dar a volta pelo térreo.

Na noite anterior, a luz vista pel’O Grupo vinha do lado oposto do prédio. As sombras também vinham daquele lado. O assombro com o estado da recepção, porém, os deixou paralisados e eles não conseguiam se mover. Os cinco se olhavam entre si à espera de que alguém tomasse uma decisão e falasse alguma coisa. Ninguém, entretanto, falava nada. O pim! ainda reverberava pela recepção quando uma porta na parede que eles não tinham notado se abriu lentamente. De lá saiu um homem, bem vestido com sua camisa branca, sua calça e sua gravata pretas.

‘Bom dia! Bem-vindos aO Hotel! Em que posso ajudar?’, disse O Recepcisnista, como se recebesse novos hóspedes todos os dias.

Comments are disabled for this post