O Contato

‘Bom dia! Bem-vindos aO Hotel! Em que posso ajudar?’, disse O Recepcisnista, como se recebesse novos hóspedes todos os dias.

O Grupo inteiro se assustou e A Pessimista soltou um leve grito. A cara tranqüila e serena d’O Recepcionista era o contrário de convidativa. O ar solícito e ameno que ele aparentava não combinava em nada com o balcão da recepção que estava a ponto de desmoronar. A sua camisa, impoluta e engomada, não condizia com a parede descascada e o carpete esburacado. Ele parecia ter saído do nada e ninguém d’O Grupo escutara a sua chegada antes dele falar. Os cinco olhavam entre si buscando quem falasse, enquanto O Recepcionista esperava uma resposta.

‘Bom dia.’, respondeu O Amanuense. ‘Gostariamos de saber se há quartos disponíveis.’, continuou ele, na esperança de que O Recepcionista desse uma boa risada e dissesse que não, que aquele hotel já havia deixado de receber clientes há muitos anos e que ele era apenas um segurança que tomava conta do complexo. O Amanuense esperava que aquele ar de normalidade na cara d’O Recepcionista fosse apenas isso mesmo, que tudo estava normal e que a sua função naquele prédio fosse a de tomar conta para que ninguém se apoderasse dele enquanto os donos decidiam o quê fazer com ele.

O Amanuense, contudo, sabia muito bem que aquele prédio não estava esperando um destino e os donos não estavam pensando no quê fazer com ele. O Amanuense sabia perfeitamente que os donos já haviam desistido daquele lugar e que não havia notícias de que alguém ainda estivesse usando aquelas instalações – muito menos um recepcionista bem vestido e solícito. O Amanuense passara meses a fio buscando quem contatar sobre O Hotel, mas nunca encontrara ninguém d’A Gerência para discutir o caso. Não fosse por aquele anúncio d’A Neta num jornal que ninguém lê, ele nunca haveria chegado ali.

‘Claro que sim! Quantos quartos os senhores precisam?’, respondeu calmamente O Recepcionista. Essa era a pior resposta que O Amanuense poderia escutar. Ele não conseguia entender se aquele homem era um louco, que se achava dono d’O Hotel, ou era alguém que se havia apoderado do prédio após o abandono. A cara plácida d’O Recepcionista não dava muitas pistas, mas O Amanuense se decantava pela primeira opção. Quão feliz ele teria ficado se ele tivesse dado uma risada e dito que aquele prédio estava caindo aos pedaços e que não havia quartos disponíveis – que, na verdade, não havia quartos!

‘Somos 5. Precisamos de 5 quartos.’, disse O Amanuense olhando em volta esperando pela aprovação d’O Grupo. As caras atônitas dos outros 4 eram quase cômicas. Num outro contexto, ele pensou que poderia dar uma grande gargalhada com aquelas caras de supresa e a perplexidade nas feições. Mas não era um contexto de comédia e muito menos de gargalhadas. Ninguém se mexeu, nem disse nada.

‘Sem problemas. Os senhores têm mais baganges?’, disse O Recepcionista.

‘Não, só essas mochilas.’, respondeu O Amanuense.

‘Perfeito. Preciso que os senhores anotem os nomes completos aqui.’, continuou O Recepcionista mostrando um livro tão velho e carcomido quanto O próprio Hotel. O Amanuense foi o primeiro a ano escrever um nome no livro e pôde perceber que há algum tempo ninguém se hospedava por ali. Contudo, não tanto tempo quanto ele esperava que O Hotel estivesse desativado. As datas das últimas hospedagens eram espaçadas e poucas, mas se via que pessoas se hospedavam ali de vez em quando nos anos mais recentes.

Os outros 4 d’O Grupo também deixaram nomes no livro. Um a um, eles se aproximavam do balcão e olhavam para a cara sorridente d’O Recepcionista. Todos sentiam uma mistura de medo e curiosidade por ele, que agradecia com muita polidez a cada um quando terminavam de escrever.

‘Muito obrigado, senhores. Por favor, deixem as mochilas aqui mesmo que eu as levo para os quartos. Vou pedir a camareira que os arrume para os senhores. Não deve demorar muito… Enquanto os quartos ficam prontos, por quê os senhores não esperam no nosso restaurante?’ Enquanto falava, O Recepcionista saiu por uma portinha à esquerda da recepção, perto das escadas. Todos deram passos para trás e O Caçado de Recompensas pôs a mão no bolso em que tinha o canivete suíço. O Recepcionista continuava com sua cara amável e indicou que o restaurante era do outro lado do térreo, dando a volta no prédio.

O primeiro a deixar a mochila no chão, encostada ao balcão da recepção, foi O Amanuense. Ele sentia uma estranha confiança naquele homem. A simpatia dele contagiava de uma maneira que O Amanuense não podia evitar. Os outros 4 não estavam tão certos e resistiam a baixar a guarda. Enquanto O Recepcionista avançava com seu sorriso que A Pessimista já começava a odiar, os outros 4 davam pequenos passos atrás. Foi O Amanuense que intercedeu.

‘Muito bem. Deixaremos aqui as nossas mochilas e vamos para o seu restaurante.’, disse O Amanuense, enquanto olhava para os outros d’O Grupo. Todos entenderam o quê ele queria dizer com aquele olhar e a primeira a deixar a mochila no chão foi A Neta. O Recepcionista continuava avançando e foi quando O Grupo percebeu que ele estava indo em direção ao carrinho, que estava atrás deles. Ele voltou e colocou as mochilas d’O Amanuense, d’A Neta e d’O Velho no carrinho. O Velho já estava se sentindo em casa e deu um tapinha nas costas d’O Recepcionista enquanto agradecia a presteza dele.

‘Senhora?’, disse o Recepcionista aA Pessimista.

‘Você tem outros hóspedes neste Hotel?’, perguntou A Pessimista.

‘Claro, minha senhora. Essa época do ano sempre estamos menos cheios, mas os mais habituées sempre estão conosco. Estão todos no restaurante, terminando de tomar o café da manhã. Por quê os senhores não se juntam a eles?’, disse O Recepcionista pegando a mochila dela e colocando no carrinho.

‘Café da manhã? Onde você disse que era o restaurante?’, perguntou O Caçador de Recompensas.

‘Dando a volta no prédio, senhor.’, respondeu O Recepcionista.

O Caçador de Recompensas deixou a mochila no chão e caminhou em direção ao restaurante, pelo lado do elevador. Os outros 4 lhe seguiram. Do outro lado do prédio, efetivamente estava o restaurante e também estavam os outros hóspedes terminando o café da manhã. Outra vez a imagem de desencontro: todos bem vestidos, alguns com chapéus, outros de bermudas e chinelos, alguns de calça e sapato. As mesas, as cadeiras, o chão, a cozinha… Todo o demais estava desmoronando.

‘Bom dia! Sentem-se aqui e logo já trago o café da manhã dos senhores.’, disse a simpática Garçonete que saíra da cozinha, do lado oposto do restaurante.

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