Dr Tarr

‘Bom dia! Sentem-se aqui e logo já trago o café da manhã dos senhores.’, disse a simpática Garçonete que saíra da cozinha, do lado oposto do restaurante. Os cinco se sentam e começam a olhar em volta… Tudo é decadente, menos as roupas e os sorrisos dos outros hóspedes sentados à outra mesa. Eles estavam todos terminando o café na mesa central do restaurante e deram as boas-vindas de longe, acenando com a mão. Eram apenas três, mas a mesa estava posta para mais gente.

À mesa estavam uma adolescente, de algo menos de 20 anos; um garoto, com a metade da idade da garota; e uma mulher, que devia estar se aproximando dos 50. A mulher tentava ajudar o garoto a comer, cortando a salsicha e passando manteiga no pão. A jovem não fazia uma boa cara, mas olhava insistentemente para os novos hóspedes. O garoto só prestava atenção em sua comida e parecia bastante contente com sua comida.

O Grupo estava esperando a volta d’A Garçonete e escutava alguns ruídos vindos da cozinha, sinal de que ela estava realmente preparando alguma comida para eles. Ela não perguntara o quê eles queriam comer, mas eles nem se preocuparam muito. Há dias que só comiam biscoitos e comida enlatada pela viagem através d’A Floresta, assim que qualquer comida quente seria mais que bem-vinda. Ao ver o fim do café da manhã da outra mesa, eles suspeitaram que o deles seria ao menos parecido, assim que salsichas, ovos, pão e suco era um banquete.

Os cinco se entreolhavam constantemente na mesa redonda. O Grupo tentava não olhar para a mesa ao lado – a garota começara a olhar insistentemente para eles, como se quisesse falar com eles. Ela se continha, talvez por medo de se aproximar, talvez porque eles estavam errados e ela não queria falar com eles. Foi quando ela fez um movimento que parecia que ia se levantar, A Garçonete saiu da cozinha com a bandeja com os cafés da manhã. Ela resolveu ficar na cadeira.

‘Aqui estão os cafés da manhã dos senhores. Espero que esteja do agrado dos senhores. Se precisarem de mais alguma coisa, não hesitem em pedir.’, disse A Garçonete. Todos agradeceram e, por alguns momentos, se esqueceram da mesa ao lado e de tudo mais. Os pratos trazidos pel’A Garçonete consistiam de bacon e salsicha, ovos mexidos e pão, além de um molho de tomate e champions. Também havia um suco de laranja e uma xícara de café, com um pequeno bule com leite.

A Garçonete então voltou a sua atenção à outra mesa, onde todos já haviam terminado os seus cafés da manhã. Ela começou a recolher os pratos e os talheres, enquanto a mulher e o garoto se levantavam e agradeciam aA Garçonete. Ela dizia ‘não há de que’ com um grande sorriso e levava tudo para a cozinha. A garota continuou sentada aA mesa, com os olhos fixos n’O Grupo.

‘Você não vem?’, perguntou a mulher à garota.

‘Agora não.’ respondeu a garota sem tirar os olhos d’O Grupo.

‘Está bem. Mas não faça nada sem pensar, por favor. Você sabe como sempre termina…’

A garota não respondeu. A mulher tomou a mão do garoto, passou ao lado da mesa d’O Grupo, desejou-lhes bom apetite com um leve sorriso e saiu do restaurante. O Grupo agradeceu, alguns apenas com um aceno de cabeça, pois não paravam de comer. A garota continuou sentada à mesa, esperando que O Grupo terminasse o café da manhã. Não tirava os olhos deles e A Garçonete veio para perto dela e perguntou:

‘Você vai falar com eles?’

‘Sim.’, respondeu, com um ar decidido.

‘Faz bem. Boa sorte!’, disse A Garçonete, com um sincero sorriso e um tapinha no ombro, e foi cuidar da louça na cozinha.

O Grupo tomou seu tempo para comer. Aquela era a primeira refeição quente em dias, já que nenhum deles havia se preparado muito bem para os dias n’A Floresta e não sabiam fazer fogo sem equipamentos. Comeiam só biscoitos e as latas que comida que pensaram que poderiam esquentar durante a viagem. Os ovos, as carnes, o café despertou um sentimento quase de alegria dentro deles e, quando terminaram, estavam quase contentes. Foi então que a garota se aproximou e sentou com eles.

‘O quê vocês fazem aqui n’O Hotel?’, perguntou sem rodeios.

‘Bom dia! Estamos passeando e encontramos esse lugar que parece muito agradável! Você está hospedada aqui também?’, respondeu A Neta, da maneira mais amável que ela conseguiu.

‘Não. Aqui ninguém está hospedado. Estão todos loucos e não tenho como ir embora. Eu cuido do meu irmão desde que meus pais morreram e tudo que eu quero é sair daqui. Vocês podem nos levar com vocês?’, perguntou afoitamente A Filha.

‘Por quê você não nos conta a sua história, minha querida?’, disse A Neta tentando acalmá-la.

‘Podemos ou não ir embora com vocês?’, insistiu A Filha.

‘Não estamos aqui para resgatar ninguém, menina.’, disse rispidamente O Caçador de Recompensas. A Filha se levantou jogando a cadeira ao chão e saiu com lágrimas nos olhos…

‘Precisava disso?’, perguntou A Neta, mas O Caçador de Recompensas não lhe fez caso. O Recepcionista acabara de chegar ao restaurante para avisá-los que os quartos já estavam prontos, mas percebeu que A Filha havia falado alguma coisa.

‘Os quartos dos senhores já estão prontos. Se quiserem me acompanhar agora, as malas dos senhores já estão nos quartos.’, disse O Recepcionista tentando não comentar sobre A Filha, apesar dos olhares inquisitivos d’O Grupo.

O Grupo acompanhou O Recepcionista e O Velho tentou entender melhor O Hotel.

‘Então… Quantos hóspedes você tem agora?’

‘Com os senhores, uns 10 quartos ocupados. Tenho certeza que passarão dias formidáveis conosco. A garota que vocês encontraram gosta de conversar, mas tem um temperamento um pouco tempestivo. Espero que não os tenha incomodado.’

‘Não incomodou de nenhuma maneira. Mas ela disse que não pode ir embora, como é isso?’, continou O Velho.

‘Bobagem! Claro que pode ir embora, mas ela e o irmão preferem ficar por aqui. Quem não preferiria? Aqui é maravilhoso! Tratamos muito bem os nossos hóspedes, especialmente essas duas crianças. Uma pena não termos nenhum animador para elas nessa época do ano, mas o pai delas prefere que elas fiquem aqui durante as férias.’, respondeu O Recepcionista.

‘Quer dizer que estão todos de férias?’, perguntou O Amanuense.

‘Bom, todos menos os que estamos trabalhando!’, disse O Recepcionista com um risinho.

Eles chegaram aos quartos e O Velho estava no 104; O Caçador de Recompensas, no 105; O Amanuense, no 106; A Pessimista, no 107; e A Neta no 108. O Recepcionista não deixou nenhuma chave com nenhum deles, mas nenhum deles pensou nisso. Os quartos eram todos iguais, todos decandentes como o resto d’O Hotel, mas com a roupa de cama limpa. Alguns tinham a cortina caindo, outros tinham a mesa sem gavetas, nalguns os armários tinham as portas pendendo por um parafuso…
Ao chegar à janela, O Amunuense pôde ver que O Filho corria às quadras de tênis e um homem o esperava com o pior par de raquetes jamais visto.

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