Não estamos de férias

O quarto 107 d’A Pessimista era um dos que tinha a vista para o campo de golf do lado oposto à entrada d’O Hotel. Ela abriu a mochila dela e ficou por muito tempo olhando uma foto que ela tinha deixado no fundo, escondida dentro de um livro. Há muito tempo que ela esperava por aquele momento e, agora que estava ali, não sabia se realmente queria saber a resposta. Desde o início ela sabia que poderia não encontrar o quê buscava, mas agora que a possibilidade de ter feito a viagem em vão era real… Foi quando bateram à sua porta.

Era A Neta, que tinha o quarto bem em frente ao d’A Pessimista. Ela tinha ficado muito intrigada com a conversa no restaurante e queria conversar com alguém. A Pessimista abriu a porta apenas o suficiente para ver que era A Neta, que lhe perguntou se podia entrar. A Pessimista pensou um pouco e terminou de abrir porta, deixando que a ela entrasse. A Neta percebeu que os quartos eram todos caquéticos, ainda que o dela tivesse uma cortina. O d’A Pessimista não tinha e ela pensou que isso era uma sorte.

As duas ficaram sentadas na cama recém feita. A mochila continua aberta, mas o livro e a foto não se via em nenhum lugar. Nenhum das duas falava nada – A Pessimista porque não queria conversar e A Neta porque não sabia por onde começar. As duas olhavam para as suas próprias mãos, cada uma com seus pensamentos. Foi quando A Pessimista pensou que, naquele Hotel, era melhor estar mal acompanhada do quê só.

‘Você não achou O Recepcionista muito estranho?’, perguntou, por fim, A Neta.

‘Sim. Muito. Tenho certeza de que ele esconde alguma coisa.’ respondeu A Pessimista, pensando que ela deveria mesmo procurar saber o quê O Recepcionista tinha por trás daquele sorriso amigável. ‘E eu não gosto nada da cara tranqüila dele – me dá muitos arrepios todas as vezes que ele chega.’

‘Eu também. Mas o quê mais me intrigou foi aquela garota… Aquela coisa sobre resgate… Será que ela está seqüestrada aqui?’

‘Não sei… Acho que não. Ela não parecia estar sofrendo. Parecia mais uma adolescente revoltada.’, argumentou A Pessimista.

‘É… Talvez.’, disse A Neta e o silêncio voltou a tomar conta do quarto que depois de um tempo ficou intolerável – então ela disse que ia ver se o banheiro funcionava e tomaria um banho. Ao abrir a porta do quarto dela, A Neta pisou num bilhete que estava no chão e que dizia “Depois do almoço, no Teatro.” e estava assinado pel’A Filha. Ela pensou em voltar ao quarto d’A Pessismista, mas preferiu ir ao quarto d’O Amuense, já que era o único amigo dela n’O Grupo.

No quarto ao lado, O Amanuense continuava assistindo O Filho jogar tênis com aquele senhor. A mulher do café da manhã estava sentada num banco que havia no perto das quadras, lendo um livro. Fazia um lindo dia lá fora e O Amanuense pensou que era mesmo uma bela manhã para ler alguma coisa. Ele havia trazido apenas dois finos livros de contos na mochila e já os havia terminado na caminha pel’A Floresta. Ele se alegrou de ter trazido aquela lanterninha de mineiro e assim pode agüentar melhor as noites entre O Povoado e O Hotel. Ele odeia dormir em barracas… Foi quando A Neta bateu à porta dele.

‘Oi! Posso entrar?’, disse ela apressadamente.

‘Claro, claro! Entre, entre.’

‘Olhe o quê deixaram no meu quarto agora há pouco.’

‘Essa é a mocinha do café da manhã?’

‘É sim!’

‘E você vai?’

‘Claro! Mas estava pensando que poderíamos ir juntos. Quer vir?’

‘Sem problemas.’

‘Ótimo!’, disse A Neta com uma grande satisfação.

‘Quer ver uma coisa interessante?’, e O Amanuense a levou à janela para ver a partida de tênis. Ela comentou que a janela dela dava para um extenso gramado e não para as quadras. Por um tempo ficaram ali olhando, até que lá embaixo deixaram de jogar e todos entraram de volta ao prédio. Foi quando A Neta se lembrou que, com a emoção do bilhete, acabou se esquecendo de ver se o banheiro funcionava. Perguntou aO Amanuense se ele havia tentado – como ele disse que não, os dois foram juntos abrir a torneira. Uma água muito barrenta saiu primeiro, mas depois de um tempo a água saiu clara e limpa. A Neta se alegrou muito e correu ao seu quarto para tomar banho. O Amanuense também tomou um longo banho e ele ficou feliz de finalmente poder se relaxar debaixo de um chuveiro. Ele deve ter demorado muito, pois quando acabara de sair de debaixo d’água, O Recepcionista bateu à porta avisando que o almoço seria servido em breve.

Quando todos baixaram ao restaurante, as duas mesas já estavam postas, mas somente O Grupo apareceu para comer. Quando O Velho perguntou onde estavam os outros, A Garçonete disse que cada um tem um horário para comer e que alguns já haviam comido e outros só vinham mais tarde. ‘Estão de férias!’, disse ela com um sorriso sincero.

Terminado o farto almoço, A Neta e O Amanuense ficaram para trás quando O Grupo subia as escadas de volta aos quartos e aproveitaram para irem ao teatro. A porta estava entre-aberta e podia ver que A Filha estava sentada numa das escadinhas que levam ao palco. Ela fez um sinal para se aproximarem e os três foram para a coxia. Lá, à pouca luz, A Filha explicou.

‘Não sei como, mas pode ser que vocês achem que isso é um hotel de verdade. Mas não é. É só olhar em volta: tudo está caindo aos pedaços. Eu estou aqui com o meu irmão há muitos, muitos anos e não conseguimos ir embora. Eu já tentei fugir uma vez, mas não consegui. Alguns que chegam de fora dizem que há um povoado ao Leste, mas eu nunca consegui chegar lá. Mas também não posso deixar meu irmão para trás. Minha mãe morreu quando meu irmão nasceu e meu pai fugiu nesse mesmo dia. Ele disse que ia buscar ajuda, mas nunca mais voltou. Eu não me lembro como chegamos, mas acho que estávamos de férias. Mas isso daqui não são férias. Não estamos de férias. Alguns dos antigos empregados d’O Hotel me disseram que já não funciona, mas O Recepcionista, A Camareira e A Garçonete sempre dizem que eles recebem os salários e que eles cuidam dos hóspedes. Os outros hóspedes dizem que eu sou uma rebelde e não me ajudam… O meu irmão nasceu aqui, quando eu ainda era muito pequena…’

Ela disse tudo isso sem parar, num só fôlego, e só parou porque começou a chorar. A Neta a abraçou e pediu que ela se acalmasse. O Amanuense achou uma cadeira e trouxe para que ela se sentasse, mas faltava uma perna e não parava em pé. Olhando para as duas, ele sentiu que deveria fazer alguma coisa, dizer alguma coisa, mas não sabia o quê.

‘Ninguém nunca acredita em mim… Estamos esquecidos aqui nesse inferno…’, disse A Filha, soluçando.

‘Eu acredito. E vamos te ajudar.’, disse A Neta com um sorriso que fez os olhos d’A Filha brilharem.

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