A Reunião

Depois da conversa com A Filha, A Neta e O Amanuense foram conversar com o resto d’O Grupo. A principal preocupação deles eram A Pessimista e O Velho, já que ninguém gostava d’O Caçador de Recompensas. Tinham que agüentá-lo, já que fora ele quem os trouxera até O Hotel, mas ninguém confiava nele. A Neta já queria comentar com O Velho e A Pessimista naquele mesmo instante, mas O Amanuense a convenceu de esperar um pouco porque A Filha poderia estar mentindo. A Neta acreditava piamente n’A Filha, mas concordou e eles resolveram esperar para contar aos outros.

Aquela noite foi a primeira que passaram n’O Hotel. As camas não eram de todo mal e quase todos puderam dormir tranqüilamente. D’O Grupo, apenas O Amanuense e O Caçador de Recompensas comeram. A Pessimista passou toda a noite no seu quarto, com a sua foto; A Neta também não saiu do quarto, pensando em como poderia saber se A Filha falava a verdade; d’O Velho não se teve notícias desde a hora do almoço. Os dois que jantaram comeram com todos os outros hóspedes d’O Hotel. O Amanuense já havia visto o homem que jogava tênis com O Filho e agora também vira A Camareira, a terceira e última empregada d’O Hotel.

Durante o jantar, A Filha ainda tinha os olhos vermelhos de tanto chorar e não falava nada. De vez em quando olhava para a cadeira vazia ao lado d’O Amanuense onde sentara A Neta no café da manhã. O Amanuense tentou sorrir-lhe, mas ela parecia perdida em seus pensamentos. O resto da mesa conversava pouco, com o homem falando alguma coisa com O Filho e ele deva umas risadinhas. A mulher também falava, mas muito baixo e não se escutava fora da mesa deles. Numa terceira mesa, pequena, estavam os três empregados que também falavam pouco. O Recepcionista lembrava A Camareira que deveria lavar mais roupa de cama e se via que ela não tinha gostado nada daquilo. Resmugava alguma coisa sobre para que receber hóspedes se eles viviam tão bem sem ninguém atrapalhando…

Durante a noite, alguns dormiram melhor que outros. O Amanuense e o Caçador de Recompensas foram os que mais problemas tiveram ao dormir. Quem habitasse os quartos acima não eram muito sutis com a cama. A Pessimista ficou deitada boa parte da noite, mas dormiu pouco. Tentava pensar se conseguiria encontrá-lo. A Neta tentava pensar em como contar aos outros a sua história. O Velho, contudo, dormiu como um anjo – era a melhor noite dele em anos!

No dia seguinte, A Neta bateu à porta do quarto d’O Amanuense ainda bem cedo. O sol acabara de se levantar quando ela entrou e sentou na cama. Ele podia notar que ela não dormira a noite inteira. A cara cansada, as olheiras, o cabelo um pouco desgrenhado acusavam de uma noite passada em branco. Ele já sabia qual era o assunto que a atormentava e começou dizendo que sim, que eles deveriam falar com O Velho e A Pessimista naquele mesmo dia.

‘Antes do café da manhã, eu acho. Temos que conversar o quanto antes e saber o quê vamos fazer daqui para frente.’, disse A Neta.

‘Sim, sim. Não dá para adiar mais. Temos que perguntar quais são as opções que temos com eles. O Caçador de Recompensas está fora de questão. Ele ainda não falou nada sobre o fato de termos chegado aqui sãos e salvos.’

‘É. Mas o contrato era virmos e voltarmos sãos e salvos. Assim que ele ainda tem metade do trabalho por fazer.’

‘É verdade. Não nos preocupemos com ele agora. Será que os outros dois estão acordados?’

‘Se escuta o ronco do quarto aqui ao lado…’, disse A Neta com um sorriso.

‘Eu o acordo enquanto você vai ao 107, ‘tá bem?’ e saíram os dois do quarto.

A Pessimista se levantou de um pulo. Mal A Neta havia batido à porta e A Pessimista já estava abrindo. O Velho levou um pouco mais tempo, mesmo porque O Amanuense batia com pouca força, não fosse o caso que acordasse também aO Caçador de Recompensas, que estava no 105. Com muito sono, O Velho concordou em ir ao quarto d’O Amanuense.

Lá dentro, O Amanuense começou a falar, explicando que cada um sabia porquê havia ido aO Hotel e que agora deveriam tomar decisões quanto ao destino deles n’O Hotel e fora dele. A primeira a falar foi A Neta, que comentou que deveriam pensar num plano de explicar àqueles pobres que O Hotel já não é o quê fora nos tempos de outrora. Ela estava aflita para tirar aquelas pessoas desse pesadelo, dessa loucura coletiva. Enquanto ela falava, ela não conseguia deixar de pensar n’A Filha e na conversa no Teatro.

Foi quando O Velho interrompeu e disse que ele entendia A Neta, mas que os objetivos dele eram completamente diferentes dos dela. Todos sabiam que cada um viera buscar uma coisa diferente nessa viagem. A última conversa n’A Pousada fora tensa exatamente por causa dessa mesma discussão. O Velho, calmamente, voltou a explicar o motivo da sua vinda aO Hotel, mas O Amanuense não o deixou terminar. Acusava O Velho de estar tão ou mais louco que os quê ali viviam, já que ele deveria saber que era uma insanidade, uma falta de senso sem tamanho. O Velho disse que ele não poderia entender, que só ele poderia sentir o quê sentia de volta aO Hotel.

A Filha percebeu que A Pessimista nada falava – só olhava perdidamente para o chão. Perguntou-lhe o quê ela tinha a dizer e ela disse que todos sabiam o quê ela buscava, mas que ainda não tinha encontrado. ‘Não podemos perder as nossas esperanças’, disse A Neta. A Pessimista assentiu com a cabeça, sem muita vontade. O Amanuense voltou a falar com O Velho que era uma insesatez querer levar a cabo o objetivo dele, mas A Neta disse que cada um deveria fazer o quê achasse mais apropriado. O Velho concordou e disse que assim seria – ele já havia conseguido fazer o quê queria. A Neta disse que mais tarde conversaria com todos e tentaria explicar as suas razões. A Pessimista suspirou e foi quando A Neta disse que lhe ajudariam no quê pudessem – falou isso olhando para O Amanuense e buscando o seu apoio. Ele levou alguns segundos para entender e confirmou que a ajudariam.

Passados alguns minutos de silêncio, todos se levantaram e começaram a sair do quarto um a um em direção ao restaurante para tomar café. No caminho, ainda no corredor do andar dos quartos, O Velho perguntou aO Amanuense se el já tinha cumprido o objetivo dele naquela viagem…

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