Nada é impossível

Enquanto todos desciam para o restaurante para tomar café da manhã, A Pessimista se lembrou que não havia trancado a porta dela. Disse aos outros que os encontraria no restaurante e voltou ao seu quarto.

Baixaram as escadas A Neta, O Amanuense e O Velho. Chegaram ao restaurante e as mesas já estavam postas, como sempre. O Amanuense não pôde evitar pensar que -apesar dos pesares- aquele era um hotel com um serviço surpreendentemente bom. Que, com uma boa reforma, poderia voltar aos velhos e bons tempos de receber gente do mundo inteiro. Pensava que era realmente uma lástima ver aquele lugar naquele estado… E então pensou que talvez pudesse ficar por lá e pudesse ajudar A Neta a recuperar tudo… Ele começava a pensar que, talvez, pudesse ficar por ali mesmo. Não era um mal lugar, se pelo menos alguém botasse as coisas em ordem. A Neta era uma pessoa que sabia das coisas, tinha contato, era popular… Ele, para completar, era uma alguém organizado, burocrático, metódico e perfeito para administrar causas perdidas. Ele ia pensando nisso enquanto descia as escadas e acabou chegando ao térreo sonhando acordado.
Todos se sentaram às mesas para tomar café e O Amanuense percebeu que havia quase todos ali – notou a falta só d’O Caçador, que provavelmente ainda estaria dormindo, d’A Pessimista, que deixaram para trás, e do senhor que jogava tênis com o garoto. De resto, ele tinha visto todo mundo por ali.
A Neta se sentiu bem ao ver tanta gente de uma vez e pediu a atenção de todos antes mesmo de se sentar. A vontade dela era de falar tudo que havia trazido no peito de uma vez, de sopetão. A sensação que ela tinha é que falar era lento demais… Por isso as suas palavras começaram muito atropeladas, sem muito sentido e ninguém entendeu nada. O Amanuense, então, se levantou e disse ao pé do ouvido que ela se acalmasse e falasse mais devagar para que todos a entendessem.
A Neta começou a contar a sua missão até O Hotel. Disse que aquele espaço fora de sua família há muitos anos, que fora um lugar do mais alto prestígio, visitado por todos que quisessem ser reconhecidos. Que também aquele lugar havia acabado, que já não era de ninguém, que os papéis e toda a memória e todos os documentos haviam se perdido e que já ninguém era pago para trabalhar ali nem ninguém pagava para viver ali. Que aquele lugar era decadente, mas que ela queria recuperá-lo porque acreditava ainda ser seu, um legado de sua família, como se com isso pudesse rememorar os momentos que passara com seus pais e seus avós ali. Que as pessoas que ali viviam não podiam continuar vivendo naquela espécie de loucura coletiva, que aquilo não poderia ser chamado de vida, que eles deveriam se dar conta de que o mundo lá fora continua existindo e que ela havia vindo para resgatá-los e recuperar O Hotel.
Ninguém acreditou nela e voltaram a tomar o café da manhã.
Parou diante da porta 107, pôs a mão no pomo da porta e ficou pensando… Havia passado tanto tempo, tantas coisas. Nem podia acreditar que estava ali, de volta àquele Hotel onde a sua vida mudou completamente. Depois daquele último dia n’O Hotel, há tanto tempo, os seus dias nunca mais foram os mesmos. Acabou por abri-la e entrar. Já havia chegado de volta aO Hotel e até agora não tinha acontecido nada. Sentou-se na cama, abriu a mochila e tirou a foto lá de dentro. Passou algum tempo olhando para ela, até que uma lágrima furtiva caiu sobre a foto. Ela enxugou o rosto e se levantou. Guardou a foto dentro da mochila e a mochila dentro do armário – na verdade, um monte de madeira que já fora um armário um dia. Acabou saindo do quarto e foi andando pelo corredor com a intenção de ir tomar café e esperar pelo discurso d’A Neta. Ela chega às escadas, para um momento e olha para dentro da Biblioteca. Há muitos livros, quase todos carcomidos, mas ela não se fixa em nada. Os olhos, parados, ficam perdidos na luz que entra pelas paredes de vidro deste lado do prédio. Ficou por muitos minutos ali, parada, com a mão no corrimão, sem se mexer, com a vista perdida no horizonte das janelas de vidro. Lá fora fazia um lindo dia, mas para ela tudo era desimportante. Só pensava no motivo que a havia trazido de volta àquele lugar que ela preferiria esquecer para sempre – mas, isso, ela sabia ser impossível. Foi quando começou a escutar que alguém descia as escadas do andar de cima. Ela se assustou e soltou um gritinho surdo que prontamente segurou tapando a boca. Não sabia o que pensar nem o que fazer, mas os instintos de fugir de tudo e de todos que ela desenvolveu nos últimos anos a levaram a entrar na biblioteca e se proteger atrás de uma das estantes. Ficou olhando para a escada que vinha do andar de cima e começou a ver pernas descendo. Pouco a pouco a pessoa que descia foi aparecendo – chinelo, canela peluda, bermuda, camisa, o rosto, os óculos, o boné… Ela ficou paralisada e voltou – boné, óculos, rosto… Um gelo lhe subiu pela espinha até a nuca e ela não conseguia acreditar no que ela via… ‘Será?’, pensava consigo mesma… ‘Não pode ser…!’, disse em voz baixa. Deu um passo para o lado, saiu de trás da estante e gritou o nome d’O Marido que há anos -muitos anos- não via. Ele já quase desaparecera pela escada, mas parou, olhou para cima e também ficou paralisado. Os dois se olharam, se encararam, mas nenhum deles conseguia se mover. A vontade de ambos era de correr e se abraçarem, mas era como se o corpo não acreditasse naquilo que estava acontecendo. As expectativas de que se vissem outra vez eram nulas, mas bem já deviam saber que nada é impossível n’O Hotel.
Aos poucos, foram se aproximando até que se afundaram cada um nos braços do outro.

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